ARTISTAS

Luiz Marenco

O tempo, por quaisquer caminhos, normais, ásperos ou tortuosos, sempre anda a meia rédea sem afrouxar a espora ou, ao menos, virar o xergão...

A sensação é que apenas alguns outonos e primaveras passaram desde que conheci o Luiz Marenco e isso aconteceu pouco depois do mesmo haver descascado a marca. Parece que não, mas conferindo o marca-talhas da vida, lá se foram mais de duas décadas...
Ainda com alguns laivos da adolescência Marenco já possuía a necessária compreensão daquilo que queria e começava a buscar; mesmo sem completar a definitiva troca do pêlo.

Na fisionomia jovial trazia a inocência dos filhotes e a incomparável luz de muitos pirilampos no coração.
No porte, altivez de potro e tajã e uma força atávica tão significativa que apenas poderia ser encontrada na eclosão das sementes quando procuram conhecer o sol. No olhar ameno, matizes de auroras campeiras e claras faíscas dos primitivos fogões acesos na pampa larga de ontem...

Com o seu jeito simples, afável, expressão sincera e cativante, aos poucos e sabiamente, foi conquistando amizades e alargando espaços na geografia humana e poético-musical do estado.

Na condição de perscrutador de rumos e horizontes foi, incansavelmente, peregrinando até encontrar alguns dos mais verdadeiros e límpidos mananciais da poesia crioula; àqueles conhecedores dos aromas naturais de todos os lugares, do íntimo das várzeas e banhadais ao topo do cerros; dos galpões aos lombos dos pingos de lei; das culatras de tropas aos maneadores de doma; do brutal rigor das invernias aos campos ensolarados e cheirosos de primaveras...

Graças a esses paladinos melodiou, com sensibilidade e notável talento, poemas de rara beleza que se tornaram canções imortais na alma do rio grande que ainda tem memória, dignidade e postura.

Embora alguns tropeços, inerentes a todos os mortais, logrou atingir um lugar de imenso destaque e sólido êxito em todos os tempos na musicalidade riograndense e, na atualidade, é reconhecido como o mais expressivo representante do canto que identifica e orgulha a todos quantos mantém a cepa primordial do gaúcho em todos os tempos.

Experimentou a punção dos espinhos de cardos e caraguatás, para conseguir saborear a doçura dos araçás...

Por tudo isso, acumulou sobre si uma intransferível e pesada responsabilidade de continuar fiel às nossas verdades em respeito aos seus seguidores, ao seu amável publico e, fundamentalmente, aos seus amigos.

      Eron Vaz Mattos
      Parador, junho/ 2011